30 Outubro 2018

A Teoria da Evolução, de Charles Darwin, diz que as espécies que perpetuam são aquelas que melhor se adaptam ao ambiente. O mesmo se aplica à indústria
Você certamente sabe quem foi Charles Darwin e estudou um pouco da Teoria da Evolução das Espécies, proposta pelo cientista inglês em 1859. Mas em tempos de profundas mudanças, você já ouviu falar sobre Darwinismo Digital e nos seus impactos para o atual modelo de produção da indústria?

Segundo o conceito, proposto em 1998 pelo autor norte-americano Evan Schwartz, assim como na Teoria da Evolução, a internet e as novas tecnologias impuseram mudanças profundas às estruturas sociais e empresariais, de modo que indivíduos e companhias incapazes de buscar adaptação estarão fadadas ao fracasso e ostracismo, seja na esfera social ou no mundo dos negócios.

Para refletir sobre as mudanças em andamento na indústria de alimentos e bebidas e os impactos das novas tecnologias para o setor, conversamos com Edison Kubo, diretor de portfólio da área de Serviços Técnicos da Tetra Pak. Confira abaixo.

[Caixas de Ideias] Muito tem sido comentado sobre a indústria 4.0. Como as inovações propostas pelo novo conceito afetam o segmento de alimentos e bebidas?
[Edison Kubo] Atualmente, cerca de 30% da capacidade instalada na indústria de alimentos e bebidas de fato encontra-se em utilização, o que abre oportunidades importantes para melhorias e ganhos em eficiência que, sem o auxílio das ferramentas de digitalização, dificilmente seriam possíveis. 

Em nossa experiência, uma das principais novidades trazidas pela Indústria 4.0 é a possibilidade de rastrear cada uma das embalagens processadas e envasadas em nossos clientes. Hoje dispomos de tecnologia que permite gerar códigos de identificação para cada caixinha, o que possibilita associar informações únicas daquele produto à embalagem onde ele será ofertado, como origem da matéria-prima utilizada, processos aos quais o produto foi submetido, data e horário de processamento e envase, etc.

Outra novidade interessante incorporada à nossa atuação foi a utilização do HoloLens, óculos de realidade mista da Microsoft. Estamos utilizando o equipamento para serviços relacionados a manutenção de máquinas. Técnicos e engenheiros da Tetra Pak que atuam nas plantas dos nossos clientes podem se conectar com especialistas globais da companhia em qualquer lugar do mundo. Dessa forma, os profissionais especializados podem atuar como se estivessem no local, ajudando a solucionar o problema. Isto permite usar o conhecimento global com o uso da realidade mista para apoiar as equipes locais de forma mais ágil, reduzindo o tempo de parada da máquina e a perda de produtividade.

Qual o custo para a implementação de tecnologias associadas ao conceito de indústria 4.0? Sob a perspectiva de disponibilidade de capital, estariam os players maiores em condições melhores por terem maior capacidade de investimento?
Não necessariamente. A indústria 4.0 é um conceito que abarca diferentes tecnologias, como se houvesse um cardápio de soluções disponíveis, podendo o cliente escolher por um combo de serviços ou por alguma tecnologia em específico. Ou seja, não se trata de um conceito engessado e que requer investimentos de uma única vez, mas que pode ser feito gradualmente, levando-se em consideração o nível de maturidade operacional e os desafios enfrentados pelo cliente no seu dia a dia. 

Dentro da realidade dos nossos clientes, notamos o rápido retorno dos investimentos feitos, principalmente por eliminar focos de desperdício e por prevenir a repetição de outras falhas. Na Tetra Pak atuamos de modo bastante próximo aos fabricantes, de modo que juntos possamos chegar às melhores alternativas para o negócio, de acordo com o perfil de cada operação.

No Brasil, há uma variação considerável entre a maturidade operacional de diferentes competidores. Neste cenário, como oferecer tecnologias 4.0 para players que, eventualmente, ainda estejam atrasados na adoção de tecnologias?
O conceito de indústria 4.0 é bastante flexível e aplicável de diferentes maneiras, a depender da realidade de cada indústria. Cada caso precisa ser avaliado isoladamente, mapeando oportunidades e desafios, nível de maturidade operacional do negócio e especificidades de cada operação.

O que é importante frisar é que, independentemente do estágio em que uma indústria esteja hoje, se ela quiser embarcar na 4ª Revolução Industrial poderá fazê-lo imediatamente.

Mas qual seria a condição mínima para migrar uma fábrica já operando há algum tempo para o modelo 4.0?
Algumas pessoas dizem que os dados serão o novo petróleo, o que tendo a concordar. Sendo assim, o principal para uma indústria que queira migrar para o modelo de produção 4.0 é que ela conte com um ecossistema que viabilize a coleta e análise de dados de sua operação. 

Hoje, todas as máquinas da Tetra Pak já são equipadas com sensores que permitem esse tipo de coleta, mas também dispomos de soluções para máquinas de terceiros. A partir da análise e do cruzamento dos dados coletados, nossos especialistas podem direcionar o cliente a fim de evitar falhas operacionais ou mesmo indicando oportunidades para melhorias.

Ou seja, coletar, analisar e cruzar dados seria o primeiro passo. A partir dele, há uma série de outras soluções que podem ser incorporadas pelos nossos clientes, dependendo das suas necessidades no dia a dia. Como disse, a indústria 4.0 é um conceito abrangente e flexível e que traz oportunidades diferentes para cada operação.

No caso de fabricantes que não investirem em soluções 4.0, a quais riscos eles estarão submetidos?
Vejo a digitalização como uma evolução natural para a indústria, do mesmo modo como foi a introdução da eletricidade durante a 2ª Revolução Industrial e da robótica na 3ª. No caso da 4ª Revolução Industrial, falamos de uma espécie de guarda-chuva que reúne uma série de tecnologias capazes de aumentar o nível de controle, eficiência, produtividade e previsibilidade de unidades industriais. Não falamos, portanto, de uma tecnologia em específico, mas de uma série de inovações que podem ser incorporadas à operação da indústria e com enorme potencial de elevar a competitividade dos players que investirem nesses serviços.  

Em uma perspectiva histórica, se analisarmos a queda de organizações que até poucos anos eram líderes em seus respectivos mercados, notaremos que, em comum, todas desprezaram inovações que em longo prazo se mostraram fundamentais para os seus negócios.

As tecnologias que baseiam o conceito de Indústria 4.0 podem ser aplicadas a diferentes indústrias. Quais os benefícios efetivos para o setor de alimentos e bebidas?
O tempo é um fator preponderante para qualquer indústria, mas ele é mais crítico quando analisamos a fabricação de produtos perecíveis. Por exemplo, a fabricação de leite se dá em cerca de 48 horas, considerando a chegada da matéria-prima, processamento e envase do produto. Qualquer parada não programada em uma das máquinas representa um custo elevado para a indústria, por isso a importância de ter processos acurados e monitorados em tempo real, o que permite corrigir desvios antes que problemas de fato afetem a operação da indústria.

Hoje temos casos de clientes que, após investirem em tecnologias amparadas sob o conceito da indústria 4.0, evitaram mais de 140 horas de interrupções não programadas e o desperdício de aproximadamente 4,2 mil embalagens. Em termos financeiros, isso significou a economia de € 121 mil por linha de produção, em um espaço de sete meses. Os ganhos foram possíveis devido à instalação de uma série de tecnologias que nos permitiu identificar desvios na operação de máquinas e prever falhas antes que elas de fato ocorressem.

SAIBA MAIS

Indústria 4.0: o impacto nos fabricantes de bebidas e alimentos

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