13 maio 2020

A digitalização do ambiente fabril e a aplicação de métodos e análises baseadas em dados já era uma realidade tomando forma em diferentes setores da indústria global. A partir de agora, contudo, elas deixam de ser uma tendência para nos colocar frente a uma nova realidade
*Por Edison Kubo

Historicamente, toda grande mudança é precedida por acontecimentos que causam uma enorme ruptura social e econômica. Neste momento, a pandemia de Covid-19, apesar dos desafios impostos aos sistemas de saúde, às pessoas e às economias, está trazendo novas mudanças para as nossas vidas, fazendo com que transformações que aconteceriam em anos aconteçam dentro de poucos meses. Exemplo disso são os pagamentos por aproximação utilizando os celulares, a forte aceleração do comércio eletrônico, a ascensão das aulas virtuais - desde escolares até ioga -, o uso da telemedicina e a oficialização do trabalho em casa, que é de onde escrevo este artigo.

Notoriamente, a digitalização do ambiente fabril e a aplicação de métodos e análises baseadas em dados já era uma realidade tomando forma em diferentes setores da indústria global, mas que a partir dos desafios colocados pela pandemia de Covid-19, acelera este processo e sentencia o nosso ingresso definitivo à quarta Revolução Industrial – ou o que habitualmente chamamos de Indústria 4.0.

Não é novidade dizer que as novas tecnologias aplicadas à indústria elevam a eficiência e produtividade das máquinas e das pessoas. Entretanto, em uma realidade que impõe limitações ao deslocamento e alterações bruscas no comportamento do consumidor, torna-se claro que a Indústria 4.0 vai além dos ganhos em eficiência e produtividade. Essencialmente, ela deve ser vista como uma alternativa para evitar falhas, paradas não programadas e, também, para se adaptar rapidamente às mudanças. Afinal, em um cenário já conturbado, o downtime das máquinas e o não atendimento das demandas do mercado têm enorme potencial para comprometer a margem e saúde financeira de qualquer negócio.

Claramente, a Indústria 4.0 está alterando as regras do jogo e colocando em vantagem os players alinhados às soluções digitais, o que também se aplica ao setor de alimentos e bebidas. Neste momento de rápidas modificações no comportamento do consumidor, é importante um sistema de produção flexível e ágil, que responda de forma imediata às novas demandas. 

No Brasil, já há casos de laticínios que durante a pandemia conseguiram ampliar a sua produção diária graças a redução no nível de desperdício (0,5%) e ao aumento no tempo de utilização das máquinas (acima de 97%). Hoje, empresas brasileiras operando fábricas inteligentes registram produtividade igual ou superior a alguns dos principais benchmarks da indústria global de alimentos.

Em um ambiente de negócios extremamente turbulento e volátil causado pela crise, um modelo de produção que rapidamente se ajuste às mudanças passa a ser um ponto estratégico na indústria de alimentos e bebidas. Tudo isto combinado ao grande aumento nas exigências dos consumidores quanto às questões de rastreabilidade e segurança alimentar e, também, à forte virada das vendas para o comércio eletrônico, que implicam em mudanças significativas no sistema produtivo.

Portanto, frente à pandemia do novo coronavírus, nota-se que fabricantes mundo afora têm dois caminhos a escolher: podem lidar com a crise de forma reativa, buscando mitigar impactos na sua produção na base da tentativa e erro, ou adotar uma postura proativa e certeira, utilizando soluções digitais para eliminar falhas, aumentar a eficiência e reduzir os custos, que se traduzem em aumento nas receitas e na margem.

Assim como em outras crises que no passado consolidaram enormes transformações na sociedade e nas empresas, a crise imposta pelo novo coronavírus tem igual potencial para uma transformação histórica no sistema produtivo. De fato, a digitalização já fazia parte do modelo de produção de muitas indústrias até aqui, contudo, de agora em diante, ela deixa de ser um recurso opcional para se transformar em um fator estratégico e decisivo.

*Edison Kubo é diretor de portfólio de Serviços da Tetra Pak para as Américas. Formado em Administração e com especialização em Marketing, o executivo é responsável por direcionar a estratégia de negócios da companhia para a região, com foco na oferta de soluções que levem mais eficiência e produtividade para fabricantes de alimentos e bebidas.
 
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